Não vejo mais graça nas coisas que me faziam rir até a
barriga doer, não sei mais levar as coisas na esportiva, me preocupo se vou ter
dinheiro no mês, tenho reuniões para resolver problemas e saio frustrada
algumas vezes. É...acho que estou começando a crescer.
Perguntam-me se eu já não estava preparada pra isso antes,
se já não imaginava a minha vida sem ser sustentada por minha mãe, se não
imaginava que se eu não lavar minhas roupas elas não vão aparecer limpas em
minha cama, eu vou chegar em casa e o único som será o da televisão e que essas
coisas vão acontecer tudo de uma vez só, sucessivamente. Sempre imaginei isso como responsabilidades,
mas agora eu vejo que é mais que responsabilidade, é um estorvo que vou
carregar pelo resto da vida até que minhas costas se acostumem. Vou sofrer toda
a noite preocupada com coisas maiores que trabalhos de escola ou se perdi a
hora.
Vejo indícios disso agora, vejo vestígio dentro de mim de
que estou crescendo, eu peço, juro que peço para que ele pare, pois não vou suporta-lo.
Ele não me escuta. E continua crescendo cada vez mais me forçando a acompanha-lo.
É como um urso que fica meses dentro de uma caverna em seu período de
hibernação e sai com fome, sem enxergar quem está há sua frente.
Tudo isso é novo demais pra mim, tento esconde-lo, mas ele é
moldável. Isso me assusta.
Beijos, Ingrid.

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